Vinte de novembro é o Dia Nacional da Consciência Negra, criado em 1971 por estudantes ativistas negros de Porto Alegre, em contraposição ao 13 de maio que libertou os escravizados sem a devida reparação histórica. A data homenageia Zumbi dos Palmares, morto em 20 de novembro de 1695, símbolo da resistência negra. A partir de então vários estados brasileiros foram agregando a data aos seus calendários comemorativos e em 2024 a data passou a integrar o calendário nacional. O evento, tem como objetivo refletir sobre a luta do povo negro contra a escravização e o racismo, e celebrar a cultura afro-brasileira.
Certamente algumas (uns) de nós estejamos nos perguntando qual a relação da Enfermagem com o Dia da Consciência Negra? A Enfermagem é a maior categoria profissional da área da saúde com um elevado contingente de pessoas negras chegando a ser mais da metade de seus trabalhadores(as), entretanto, são poucas as referencias negras reconhecidas em nossa profissão, tanto no âmbito nacional quanto internacional. Assim, é pertinente homenagear nessa data as(os) profissionais de enfermagem negras(os), na figura de três grandes mulheres, que com sua competência e conhecimento prestaram relevantes serviços á sociedade. É preciso dar-lhes a visibilidade devida destacando seus feitos e a sua importância.
A homenagem também se dá em reconhecimento a forma como enfrentaram o racismo superando barreiras, assumindo sua negritude, tornando-se uma referência para as gerações contemporâneas e futuras; são elas Josephina de Mello uma legitima referência local, Izabel dos Santos uma potente referencia nacional e Mary Grant Jean Seacole uma emblemática referência internacional.
Josephina de Mello
Josephina de Mello nascida em Manaus, em 21 de maio de 1920, filha de mãe barbadiana e pai brasileiro, abraçou a enfermagem como profissão a exemplo de sua mãe Florence Alberta de Mello e sua irmã Emília de Mello. A homenageada graduou-se pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo – EEUSP, e em Administração pela Universidade do Amazonas (UA); realizou curso de especialização em Saúde Pública nos Estados Unidos da América e obteve o título de doutora livre docente pela Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio de Janeiro (EE/UFRJ). Já no ensino da graduação as barreiras enfrentadas para alcançar o desejo de ser enfermeira podem ser constatadas quando mesmo indo além dos pré requisitos que lhe garantiriam a aprovação, fluência na língua inglesa e atuação num posto de assistência médica, não o conseguiu. Campos e Oguiso problematizam “O que teria acontecido com Josephina de Mello? Porque a ficha de admissão da Escola Ana Nery foi arquivada juntamente com os documentos da Escola de Enfermagem da USP?” Mais tarde com os mesmos dados da ficha de admissão da Escola Ana Nery Josephina de Mello foi aprovada na Escola de Enfermagem da USP. ( Campos e Oguiso, 2008).
Em sua trajetória profissional, no âmbito da Fundação Serviço Especial de Saúde Pública (FSESP) atuou na assistência, no ensino, na pesquisa, na gestão e participou da formulação das políticas de saúde e educação do estado do Amazonas e do município de Manaus. Observadora atenta da realidade Josephina de Mello publicou artigos sobre formação profissional em enfermagem, sobre o exercício profissional da enfermagem nos serviços de saúde da Amazônia, sobre as disparidades regionais e desigualdades econômicas na Amazônia e sobre o modelo Zona Franca e suas repercussões locais. Exerceu cargos de gestão a exemplo da direção da Santa Casa de Misericórdia de Manaus por quase vinte anos.
Reconhecida por sua atuação no campo da educação recebeu a Medalha Ana Nery, conferida pela Sociedade Brasileira de Educação; Menção Honrosa por ocasião da entrega dos prêmios: “Enfermeira do Ano 1969; Medalha de Prata, pela Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn SP);Enfermeira do Ano 1970 pela Associação Brasileira de Enfermagem e Johnson & Johnson (1971); e em abril de 1978 foi condecorada com a Medalha Mérito Oswaldo Cruz, por sua atuação no campo do Ensino e da Saúde Pública, sendo essa a mais alta comenda nacional.
Passados trinta anos de seu falecimento a profa Dra. Josephina de Mello continua tendo o reconhecimento de seus pares e da sociedade amazonense, integra a galeria de homenageadas na premiação dos eventos científicos instituídos pela ABEn Nacional – Seminário Nacional de Diretrizes para a Educação em Enfermagem – SENADEN, proposto pela Associação Brasileira de Enfermagem Seção Amazonas (ABEn AM) e pela Escola de Enfermagem de Manaus, respondendo pela temática “A Equidade como expressão da Enfermagem”.
Em âmbito local faz-se presente na premiação de melhor trabalho científico original, como “Prêmio Josephina de Mello”, na Semana de Enfermagem da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Em 2021 no 21º Seminário Nacional de Pesquisa em Enfermagem/ SENPE e 2º Seminário Internacional de Pesquisa em Enfermagem, deu nome ao auditório principal, em reconhecimento a sua atuação na pesquisa.
A laureada também foi homenageada pelas Secretarias de Educação e de Saúde do Amazonas dando seu nome ás unidades respectivamente: Escola Professora Josephina de Mello e Escola Estadual Josephina de Mello; Centro de Atenção Integral á Saúde da Criança Josephina de Mello e Unidade Básica de Saúde Josephina de Mello. Em 1988 foi indicada para receber a homenagem Vulto Estadual do Amazonas e representar a raça negra no Ano do Centenário da Abolição. Dá nome ao Centro Acadêmico da Universidade Luterana/ULBRA e ao mini auditório da EEM. Foi homenageada através da Comenda Profa. Dra. Josephina de Mello COREN/AM e, seu aniversário de nascimento em 21 de maio marca o encerramento da Semana de Enfermagem da Universidade Federal do Amazonas / UFAM.
A profa Josephina de Mello faleceu em 27 de setembro de 1985 aos 75 anos, desses, trinta e nove foram dedicados a Enfermagem, o que corresponde a mais da metade de sua vida.
Izabel dos Santos
Izabel dos Santos nasceu em 07 de março de 1927 em Pirapora Minas Gerais, filha de Juvenal José dos Santos e Hormezinda dos Santos. Graduou-se pela Escola de Enfermagem Hugo Werneck em Minas Gerais. Atuou no ensino, assistência, gestão e articulação política com competência técnica alcançando resultados bastante positivos na formação de nível médio em Enfermagem. A opção pela Enfermagem como profissão não foi sua primeira escolha, deveu-se as dificuldades financeiras pelas quais passava sua família á época de seu ingresso no ensino superior, sendo sua formação inicialmente financiada pela igreja católica. É pertinente dizer que a enfermagem a escolheu havendo uma identificação mutua entre ambas que apontaram novos e profícuos horizontes. A adesão pela saúde pública deveu-se a identificação com a área por alcançar um maior número de pessoas além de favorecer a autonomia do enfermeiro.
Como enfermeira da Fundação Serviço Especial de Saúde Publica (FSESP), Izabel dos Santos atuou em Pirapora (MG), Cuiabá (MT), Recife (PE) e Rio de Janeiro (RJ). Foi docente da Universidade Federal de Pernambuco e da Universidade de Brasília. Participou na origem/elaboração de importantes projetos nacionais com repercussão internacional, a saber Programa de Preparação Estratégica de Pessoal de Saúde (PPREPS), Projeto Larga Escala (PLE), Curso de Desenvolvimento de Recursos Humanos em Saúde (CADRHU). Foi consultora Nacional da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS/OMS) no Brasil.
Visionária, suas ideias no Projeto Larga Escala pavimentaram políticas de formação, em serviço, dos atendentes de enfermagem numa outra proposta de formação ética, cidadã e inclusiva, visando sempre a melhoria e a qualidade dos serviços prestados a indivíduos, famílias e comunidades, qualificando o cuidado de enfermagem; também criou possibilidades de inclusão dos atendentes em seu itinerário formativo nos locais onde trabalhavam, reduzindo as barreiras de acesso e tempo. A integração ensino -serviço, estratégia utilizada para a formação em serviço, foi decisiva para o êxito da iniciativa. Alcançou também enfermeiros lhes apresentando as ferramentas necessárias para atuar na docência em enfermagem (Leite et al, 2024).
Nossa laureada recebeu várias homenagens dentre as quais destacamos: “Prêmio Izabel dos Santos”, da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (EERP), “Prêmio Enfermeira Izabel dos Santos”, patrocinado pela Escola de Formação Técnica em Saúde Enfermeira Izabel dos Santos instituído pela Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn) cuja temática é “educação profissional técnica de nível médio em Enfermagem”. Tem seu nome em uma sala de audiovisuais na sede da OPAS-Brasil. Uma de suas fotos está na Galeria dos Sanitaristas Eméritos do Ministério da Saúde, é a primeira enfermeira, negra e mulher a entrar para esta galeria. A Escola Técnica do Sistema Único de Saúde (ETSUS) do Rio de Janeiro recebe seu nome.
Izabel dos Santos faleceu em 01 de dezembro de 2010, aos 83 anos, mais da metade de sua vida, cinquenta anos, dedicados à Enfermagem.
Mary Seacole
Mary Grant Jean Seacole nasceu em 23 de janeiro de 1805 em Kingston na Jamaica, filha de mãe negra e pai escocês, combinou espírito empreendedor e práticas de cuidado aprendidas com a mãe, uma herborista e “curandeira” que administrava uma pensão. Em sua trajetória, Seacole transitou entre negócios, viagens e assistência direta em contextos de epidemias e guerra, oferecendo sustento, conforto e cuidados a doentes e convalescentes. Autores e sites a descrevem, com razão, como uma empresária que prestou cuidados de saúde e apoio em regiões de endemias e conflito, reconhecendo sua determinação e a relevância simbólica de sua experiência (Odusanya, 2025; Read Mary’s Story, s/d; Mary Seacole, s.d.).
No Panamá, por ocasião da corrida do ouro em 1851, Seacole, após instalar-se, abriu um salão de refeições para viajantes. Prestou cuidados, frente a um grande surto de cólera realizando procedimentos tanto no ambiente, como ventilação dos ambientes, aplicação de cataplasmas e eméticos de mostarda, uso de purgantes e outras medidas então correntes, além de aquecer e hidratar pacientes e observar sinais de gravidade. Tais experiências lhe prepararam para atuar em situações de epidemias e de guerra.
Com o início da Guerra da Criméia, Seacole foi ao Ministério da Guerra em Londres para se oferecer para ser enviada como enfermeira do exército, sendo recusada, apesar de seu vasto conhecimento, experiência e recomendações dos governos da Jamaica e do Panamá. A recusa do governo inglês em aceitar a participação de Seacole na equipe de Florence Nightingale gerou desconforto em nossa homenageada que se perguntava se “Seria possível que os preconceitos americanos contra a cor da pele tivessem alguma origem aqui? Será que essas senhoras não aceitaram minha ajuda porque meu sangue corria sob uma pele um pouco mais escura que a delas? “(Seacole, p. 79, 2023, Seaton, s.d.)
Não aceitando a recusa, Mary arrecadou fundos para viajar por conta própria à frente da batalha. Com o dinheiro que obteve montou o “British Hotel”, onde vendia comida e bebida aos soldados para, assim, custear as despesas do atendimento a doentes e feridos dos dois lados. Na Jamaica antes mesmo de ir para a Crimeia Mary Seacole usufruía da consideração dos militares por quem era tratada como Mãe Seacole, embora não tivesse conhecimento deste fato o que veio a conhecer quando desembarcou em Gibraltar rumo a Crimeia. Ainda que a contribuição de Seacole não tenha sido reconhecida pelas autoridades londrinas, o impacto causado por ela na Criméia foi reconhecido e evidenciado por militares, que no seu retorno para Inglaterra, organizaram um evento em sua homenagem, com a presença de 40 mil pessoas na platéia (Odusanya, 2025).
O engajamento e sua popularidade entre os combatentes foi para além da guerra, quando esteve carente de recursos para sua sobrevivência os militares lhe prestaram ajuda angariando dinheiro para ajuda-la. Apesar do reconhecimento em vida por parte dos soldados de quem havia cuidado, Mary Seacole foi ignorada quando o Memorial da Guerra da Crimeia foi erigido em Londres, em 1915. Esquecida por décadas, Elsie Gordon encontrou uma cópia da sua autobiografia numa loja de livros usados (Seaton, s.d.). Com a redescoberta de sua história, Mary Seacole foi homenageada tanto no Reino Unido quanto na Jamaica, onde dá nome à sede da Associação Jamaicana de Enfermagem.
Hoje, instituições de memória destacam Seacole como exemplo de perseverança, cidadania e empreendedorismo, e entidades profissionais a celebram como referência de defesa do paciente e de princípios básicos de higiene e conforto. Mary Seacole faleceu em 14 de maio de 1881 aos 76 anos. Após sua morte foi homenageada com a Ordem de Mérito Jamaicana em 1991 e votada como a maior personalidade negra britânica em 2004. (Quintana, 2024).
Em nome dessas três mulheres negras homenageamos todas (os) as pessoas negras que têm a enfermagem como profissão.
Referências
LEITE, I. C. M.; SILVA, A. L. A. Contribuciones a Las Ciencias Sociales, São José dos Pinhais, v. 17, n. 10, p. 1‑14, 2024.
CASTRO, Janete Lima de; SANTANA, José Paranaguá; NOGUEIRA, Roberto Passos. Izabel dos Santos: a arte e a paixão de aprender fazendo. In: Izabel dos Santos: a arte e a paixão de aprender fazendo. 2002. p. 128-128.
SEACOLE, M. Viagens de Mary Seacole: da Jamaica até Constantinopla; de Constantinopla para a Criméia; da Criméia para Londres.
SEATON, H. J. Another Florence Nightingale? The Rediscovery of Mary Seacole. A Web of English History, s.l., s.d. Disponível em: <URL>. Acesso em: 17 nov. 2025.
DA SILVA, Nair Chase; DE FIGUEREDO, Led Daianna Fernandes. A trajetória da enfermeira Josephina de Mello nas dimensões do processo de trabalho em Enfermagem. História da Enfermagem: Revista Eletrônica (HERE), v. 14, p. e04-e04, 2023.
CAMPOS, Paulo Fernando de Souza; OGUISSO, Taka. A Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo e a reconfiguração da identidade profissional da Enfermagem Brasileira. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 61, p. 892-898, 2008.
ODUSANYA, Mojibola. Black History Month – Has the issue of racial discrimination in nursing improved in the last 150 years? Disponível em: <https://www.rcn.org.uk/news-and-events/Blogs/021024-mojibola-odusanya-black-history-month>. Acesso em: 03 nov. 2025.
READ’S MARY STORY. s.d. Disponível em: <https://www.maryseacoletrust.org.uk/learn-about-mary/>. Acesso em: 03 nov. 2025.
QUINTANA, Danielle. Honoring the Life and Work of Mary Seacole. Disponível em: <https://www.aorn.org/article/honoring-the-life-and-work-of-mary-seacole>. Acesso em: 03 nov. 2025.
Manaus, (AM), 20 de novembro de 2025
Profa Dra. Nair Chase da Silva – Presidente da ABEn AM
Profa Dra Sibila Lilian Osis – Diretora do Departamento de História da Enfermagem ABEn AM
Profa Dra, Gilsirene Scantelbury de Almeida – Diretora de Educação da ABEn AM